Causas da guerra na Ucrânia: uma abordagem psicológica

Iremos tentar perceber, de um ponto de vista psicológico, uma das causas desta guerra. Ao mesmo tempo, procuraremos retirar algumas lições desta nossa reflexão para a nossa vida do dia a dia. Esta é apenas uma abordagem possível, já que existem outras, talvez até com mais peso, para explicar este conflito: políticas, económicas, culturais, ou outras.

Gostaria de começar por referir uma teoria que diz que a violência injustificada por parte dos adultos tem as suas raízes numa sua infância muito maltratada. Esses maus-tratos recebidos quando crianças levaram-nos a acreditar na sua própria maldade – “se os meus pais me odeiam, pela violência verbal e física com que me tratam, então é porque eu devo ser mesmo muito mau”. O que está fora de questão para estas crianças vítimas de maus-tratos é acreditar na maldade daqueles que têm nas suas mãos a própria sobrevivência da criança.

Consequentemente, passaram a acreditar na maldade original de todas as crianças e, por extensão, de todas as pessoas em geral. Daí, em adultas, estas vítimas da violência familiar tornarem-se elas próprias agressoras violentas na suas próprias famílias, ajudando a perpetuar este sofrimento. E, dada a sua insegurança básica criada desde a mais tenra infância, estas pessoas tornam-se ávidas de poder, de forma a poderem garantir a sua própria segurança. Quanto mais poder tiverem, maior a sua capacidade de espalhar violência e sofrimento à sua volta.

Por outro lado, o organismo (corpo + mente) não se deixa enganar e sabe que foi muito injusta e cruelmente tratado. Por isso, alberga sentimentos justificados de raiva, ódio e vingança pelo mal que lhe foi infligido. Trata-se de sentimentos que tiveram de ser reprimidos quando crianças, mas que já podem ser expressos quando adultos. Só que, em vez de dirigidos para os causadores do mal feito (a família ou outros agressores), eles são inconscientemente deslocados no tempo (para a atualidade) e nas pessoas (para outros mais fracos). Ou seja, como é inadmissível em relação aos pais, é para os filhos, ou para as mulheres, ou para os outros, que esses sentimentos se vão virar.

Parece-me ser este o caso de Vladimir Putin.

Nós somos uma espécie profundamente social que tem o objetivo primordial de sobreviver exatamente como espécie. A violência não é natural no ser humano (assim como a maldade não é natural na criança!), ela tem de ser estimulada artificialmente por ameaças e perigos reais ou imaginados (por nossa própria sugestão ou de outros). Ou por uma educação violenta que fez a criança adquirir a aprendizagem de que tudo tem de se resolver pela violência ou pela sua ameaça. A violência não é natural nos animais, a não ser a estritamente necessária e localizada para adquirir comida, para garantir um território ou para salvaguardar a reprodução. A “naturalidade” da violência, principalmente a organizada em exércitos e guerras, é uma característica adquirida pelos seres humanos.

Devo acrescentar que acredito profundamente que esta teoria é verdadeira. Mas reconheço que tem um problema: é uma teoria que não pode ser provada de forma clara. Primeiro, porque é inadmissível fazer experiências com crianças. E, segundo, porque se a violência na infância originasse sempre adultos violentos, então teríamos aí uma prova; mas nem sempre se passa isso, ela também pode dar origem a adultos que reconhecem que qualquer forma de violência sobre as crianças é absolutamente inaceitável (que é o que a lei em Portugal já diz, aliás).

A seguir, iremos pela abordagem neuropsicológica e evolucionista que é habitual nas minhas aulas.

causa da invasão mais comummente publicitada por quem a iniciou, a Rússia, e por quem a defende, é de que se trata de uma resposta a uma provocação, tanto da própria Ucrânia, como do Ocidente. Provocação que ameaça os próprios russos.

Não parece ser admissível que uma grande potência nuclear responda, e logo com uma guerra!, a provocações ou porque se sente ameaçada por um pequeno país sem armamento nuclear, visto que isso representaria um sintoma de fraqueza e de facilidade infantil de ser manipulada pelos alegados “provocadores”.

No entanto, respeitando o que nos é dito, provavelmente a realidade talvez seja outra. Vejamos: o que pode provocar a agressão nos seres vivos? Algumas vezes, a frustração por nos ser impedida a busca de recursos necessários à sobrevivência. Mas, a maior parte das vezes, a agressão é uma resposta ao medo.

Claro que é mais digno dizermos que fomos provocados, do que dizermos que ficámos com medo. Mas, no fundo, é mesmo de medo que se trata. Avaliemos porquê.

Quando sentimos medo, o nosso organismo tem um conjunto básico e primitivo de cinco respostas que iremos detalhar a seguir. Que fique claro que estas respostas são, no geral, automáticas. Portanto, consoante a gravidade da ameaça ou do perigo, assim elas “desligam” mais ou menos o nosso cérebro racional. Assim, este apenas pode contrariar, com menor ou maior sucesso respetivamente, a concretização destas respostas.

  • Luta: quando sentimos que somos mais fortes do que a ameaça (aqui a “luta” é definida de forma lata, isto é, pode ter origem numa pessoa, num conjunto de pessoas, em outros seres vivos, ou ainda em dificuldades de natureza vária). Parece ser este o caso da Rússia, visto que foi ela que iniciou o conflito. É difícil de acreditar que um país pequeno o iniciasse contra aquele que é o maior país do planeta que, ainda por cima, é uma gigantesca potência nuclear (por exemplo, nenhum país se atreve a invadir atualmente os E.U.A. ou a China; nem a Rússia, por falar nisso). Ou que a Europa, sabendo o que aconteceu a Napoleão ou a Hitler, sonhe sequer com isso. No entanto, há uma outra situação em que o nosso organismo opta pela luta, o que acontece quando surge um grande desespero que se transforma numa fúria quase suicida, o que parece ser agora o caso da Ucrânia.
  • Fuga: quando damos conta de que somos mais fracos do que o outro e não temos hipótese de o vencer.
  • Paralisação: quando vemos que a ameaça é de tal forma esmagadora que não permite nem a luta nem a fuga. Desta forma, procuramos passar despercebidos.
  • Submissão: Decorre da situação anterior, mas em que não há a expetativa realista de passarmos despercebidos. Assim, procuramos ganhar as boas graças do agressor, mostrando que não constituímos qualquer desafio para ele.
  • Dissociação: quando toda a esperança, inerente às quatro respostas anteriores, de sairmos ilesos da situação desaparece. Neste estado, o cérebro prepara o corpo para qualquer mal que lhe aconteça, desviando o sangue dos membros e diminuindo a frequência cardíaca, de forma a poder reduzir a perda de sangue por possíveis feridas. Além disso, faz o corpo produzir opióides que acalmam a dor, produzem calma e dão origem a uma sensação de distância psicológica em relação ao que lhe está a acontecer, desconectando a pessoa da realidade.

Destas respostas automáticas, a luta (apesar de ter aspetos positivos) é a mais prejudicial para o bem-estar e para a boa convivência de todos. Em especial, numa sociedade complexa como a nossa, onde praticamente já não existem soluções simples (quem as prometer está a mentir) porque todos os problemas são complexos.

Aliás, a luta está por detrás de muitas das atitudes mais feias da nossa espécie – racismo, misoginia, preconceito de idade, antissemitismo, homofobia, xenofobia, para citar apenas algumas. Feias, porque atacam em regra os mais fracos e os mais vulneráveis.

Mas porque é que o medo surge em situações que não o justificam? Evidentemente, pode ser induzido por outros, para fins inconfessáveis. E isso acontece muitas vezes. Devemos desconfiar sempre que nos atiçam o medo em relação a uma pessoa ou grupo de pessoas mais fracos.

Porém, genericamente, tendemos a temer o que não entendemos. Aquilo que é estranho aos nossos olhos, aquilo que desconhecemos, pode constituir um perigo para nós. Só que a ignorância é, muitas vezes, o único perigo. Como consequência, olhamos com desconfiança, isto é, medo, aqueles que parecem ser diferentes de nós e com quem temos dificuldade em nos identificar.

Para contrabalançar a nossa sensação de vulnerabilidade e dar-nos energia para a enfrentar, o medo transforma-se muito facilmente em raiva, ódio ou mesmo violência (esta pelas razões atrás enunciadas para a luta).

Ao mesmo tempo que tende a suprimir as partes racionais do nosso cérebro, a fim de nos concentrarmos apenas na nossa sobrevivência e na sobrevivência dos nossos mais próximos (normalmente, não é apenas a sobrevivência pessoal que estimula estes processos).

Como podemos prevenir ou remediar estas situações extremas? Várias hipóteses de resposta estão ao nosso dispor:

  • Ignorar e virar costas ao problema?
  • Procurar um acordo, fazendo cedências? Note-se que, num conflito, não se tenta um acordo para obter o melhor para os dois lados (porque senão pode-se nunca chegar a nenhum acordo), mas para obter o menos mau para ambos.
  • Punir?
  • Responder na mesma moeda?
  • Aumentar a parada?

Estas três últimas hipóteses, só se:

  • tivermos a certeza de que somos mais fortes,
  • de que o outro lado não tem ilusões acerca disso,
  • e de que não o pomos numa posição desesperada (o que pode despertar nele uma fúria assassina e/ou suicida).

A primeira hipótese, deixar passar o tempo, às vezes resulta, no sentido de o problema se diluir. Mas só no caso de ser um problema ligeiro. Caso contrário, habitualmente, leva a uma escalada do problema até ele se tornar quase intratável.

melhor opção será, então, a tentativa de obtenção de um acordo que inclua cedências mútuas. Como base para isso, a linha de ação mais segura será:

  • ter atitudes e atos de aproximação mútua, para fazer diminuir a sensação de ameaça;
  • oferecer informação e conhecimento, a fim de que a ignorância não alimente o medo;
  • e, finalmente, promover a consciencialização de que não somos tão diferentes assim uns dos outros.

Este último passo pode ser conseguido começando pelo seguinte princípio básico: todos nós, sem exceção, concreta e profundamente, só desejamos uma vida segura, com alimentação, abrigo e saúde garantidos, e com facilidade de educação e de mobilidade social (vertical e horizontal) para os nossos filhos.

Naturalmente, haverá sempre alguns gananciosos (em todas as classes sociais e etnias) que querem tudo para si. Mas é o dever de uma sociedade de pessoas boas limitar pelas leis e pela vigilância a capacidade de aquelas pessoas fazerem mal aos outros e ao planeta.

Para o conseguir, importa não fugir da luta coletiva e investir aí o nosso esforço (sozinhos temos pouco alcance para conseguir modificações sociais). A quem nos juntarmos? Às pessoas que, como nós, querem construir um futuro melhor para nós e para os nossos descendentes. Por exemplo, formando ou colaborando com associações e outras organizações que promovam uma melhoria das condições de vida para todos.

Finalmente, lembremo-nos que a nossa decisão de investir numa luta coletiva, por implicar novos relacionamentos e por fazer diminuir a nossa sensação de impotência, tem a vantagem adicional de ajudar a reduzir tanto o nosso medo como as outras emoções negativas (como a ansiedade, raiva, etc.)!

Obrigado e uma ótima semana para tod@s!

Bibliografia

Jane Ellen Stevens (2022). How Vladimir Putin’s childhood is affecting us all.

Alice Miller (2009). Breaking Down The Wall Of Silence. New York: Basic Books.

Bruce D. Perry (2017). The Boy Who Was Raised As A Dog. New York: Basic Books.

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